#6 Carta – Sobre minha vida de oração

29 de setembro de 2017

Filho amado,

É sempre um grande desafio para mim expressar em palavras que você possa compreender as minhas experiências e vivências espirituais. É uma questão de linguagem. Procuro os conceitos e as palavras que possam comunicar e traduzir os significados da minha experiência numa linguagem que faça sentido para você. Nesta árdua tarefa de tradução, tenho à minha disposição a linguagem religiosa, com sua sintaxe e seu vocabulário próprios. Seria bem mais fácil para mim me comunicar utilizando esta linguagem, que está muito mais próxima da minha experiência. Mas receio que você não me entenderia, pois esta linguagem carrega também significados históricos, culturais e até ideológicos que não correspondem à minha experiência e que podem, assim, confundi-lo. Por isso, tentarei me remeter à experiência primeira e comunicá-la sem recorrer aos termos carregados de sentidos próprios da religiosidade cristã.

Vejo-me, assim, diante do desafio de buscar palavras novas e de traduzir com uma nova sintaxe o meu movimento interno e minhas experiências espirituais. Contudo, alguns conceitos e palavras são como que axiomáticos, isto é, são o ponto de partida da linguagem da minha experiência e não podem ser definidos por outros conceitos. Esses conceitos-chave, fundamentais e irredutíveis, são os “dados” da minha experiência. O primeiro destes conceitos, obviamente, é “Deus”. Outros conceitos-chave e axiomáticos são “coração” e o ato de “escutar” a Deus no coração.

Talvez você me pergunte: como é que Deus “fala” ao coração”?
Tentarei responder não como uma teóloga, já que não sou, mas com as palavras simples retiradas diretamente da minha experiência:

Deus fala à humanidade de diversos modos.
O universo todo é uma fala de Deus (Deus “disse”, e o universo foi criado).
Na contemplação do cosmos, da natureza e da vida, podemos escutar Deus, “ver” seus pensamentos, ouvir sua “voz”.
Deus fala também através das pessoas, de suas ações no mundo e na história.
Deus fala na consciência de cada um.
Um lugar privilegiado para escutar a Deus é o “coração”, na experiência da entrega na oração contemplativa e silenciosa.

Orar, para mim, é me abandonar à escuta silenciosa do Deus que habita em mim e em todas as coisas e que quer me falar.
Em oração, eu vivencio e expresso meu profundo amor e gratidão ao Criador e doador da vida.
Orar é amar. É vivenciar o amor em toda sua plenitude.
É amar a fonte de todo o amor, amando o amor mesmo.
É nesse estado de profunda vivência e contemplação do amor, nesse estado de “oração de quietude”, que escuto mais nitidamente Deus falar em meu “coração”.

Neste estado de amor e de abandono, sinto Deus viver e amar em mim. Então, já não sou mais eu apenas quem ora, mas é Deus quem ora em mim e através de mim. Este parece ser o sentido último da oração, essa comunhão, essa participação no amor divino. Através dessa oração de comunhão no amor, a presença de Deus se expande no interior de sua própria criação. A oração se torna doação de amor, irradiação de luz, comunhão de vida. Assim, a oração não é mais um ato individual e solitário, mas um gesto solidário com toda a humanidade.

Contudo, ao olhar sensível (i.e., relativo aos sentidos físicos), a oração não possui efeito ou consequência alguma no mundo natural. Numa visão cética e racionalista, a pessoa orante desperdiça seu tempo, pois o silêncio e a quietude física não acarretam efeito algum no mundo. Nesta perspectiva, a oração seria uma inação, um imobilismo egoísta, um exercício de autoindulgência, satisfatório talvez para o ego, mas irrelevante para as necessidades do mundo.

Aqui precisarei introduzir na nossa linguagem mais um conceito axiomático (que já havia comentado com você numa carta anterior): o da existência da realidade sobrenatural, a realidade não-sensível, não-material, que transcende nosso espaço-tempo, que existe além e é subjacente ao universo observável. Para contemplarmos os efeitos e consequências da oração é preciso compreender que ela opera primordialmente na esfera da realidade sobrenatural.

A realidade sobrenatural é a realidade do mistério divino, sempre além de nosso entendimento racional e de nossas categorias lógicas. No entanto, para descrevermos esta realidade sobrenatural dispomos somente de conceitos e imagens oriundos do mundo natural, que utilizamos apenas de forma alegórica, metafórica.  Nessa linguagem alegórica, dizemos que a oração irradia luz de Deus para o mundo. A oração tem o poder de curar os enfermos (as feridas da alma), levantar os caídos, abrir os olhos (da fé) aos cegos, libertar os cativos (das ilusões e dos vícios), levar a esperança e o consolo aos aflitos e despertar para a vida (espiritual) quem jaz na morte (do afastamento de Deus). Na esfera sobrenatural se desenrola, metaforicamente, uma incessante batalha entre luz e treva, entre vida e morte, entre esperança e dor, entre amor e ódio, isto é, entre o “bem” e o “mal”. As orações de todo o “povo de Deus”, no “céu e na terra”, em todo o tempo e lugar, se unem como que em um só coração, nesta dimensão sobrenatural, irradiando, transmitindo, levando o amor de Deus a todos os confins da terra.

Ou seja, a oração não é um ato solitário e individualista, mas uma doação do amor de Deus, através do coração orante, para o mundo todo, principalmente para os que mais necessitam de força, de amparo, de luz, de vida e de esperança.

Filho amado, toda essa longa introdução é para poder lhe explicar o que aconteceu comigo, cerca de dois anos atrás, quando comecei a experienciar uma radical expansão e aprofundamento da minha experiência de oração.  Até então, a oração era ‘apenas’ o pilar de sustentação da minha vida, do meu trabalho e do meu viver cotidiano. Orar me nutria, me consolava, me fortificava e guiava meus passos, principalmente nos momentos de maior tribulação. Mas, gradativamente, uma mudança profunda começou a operar no meu coração. Ao invés de ‘apenas’ orar para viver, comecei a sentir a necessidade, muito real e verdadeira, de viver para orar. A oração já não fazia mais sentido apenas como alicerce, como fundamento da minha vida no mundo, mas comecei a sentir a necessidade imperiosa de que o meu próprio viver e estar no mundo fosse uma contínua oração. Difícil explicar essa experiência, traduzi-la em palavras. Dita assim, talvez pareça uma loucura, um surto psicótico, uma fuga fantasiosa. No entanto, para mim, foi e continua sendo uma experiência de profunda lucidez, em que tudo enfim se ilumina e se plenifica de sentido.

Meu ingresso no mosteiro, há sete meses, foi como uma culminação deste longo processo de transformação de minha consciência de mim mesma e da minha relação com Deus e com o mundo. A vida de oração no mosteiro encheu meu coração de júbilo e de paz. No silêncio do claustro, nas orações litúrgicas ao longo de todo o dia (o “Oficio Divino”) celebradas com canto gregoriano, na contemplação e meditação da Palavra de Deus (que acreditamos ter sido transmitida pelos autores da Bíblia), no cotidiano da vida do mosteiro, minha alma encontrou grande repouso.

Mas a vida é processo dinâmico, onde o fim de uma etapa é sempre o inicio de uma nova. Após quatro meses de quietude e paz, Deus me mostrou que precisaria prosseguir em seus caminhos, levando para o mundo a vida de oração que aprendera na proteção e quietude do mosteiro. Compreendi que os tesouros que encontrei na vida monástica precisam ser compartilhados no mundo…

Sair do mosteiro foi uma decisão difícil e dolorosa. De volta ao mundo, me sinto como uma exilada, como uma estrangeira. Meu desafio agora é viver uma vida de oração em meio à agitação, aos ruídos e distrações do mundo. Em fevereiro, finalmente ingressarei no Instituto Religioso Nova Jerusalém. Meu tempo no mosteiro talvez tenha sido um período de hibernação, em que repousei e acumulei forças para a longa e exaustiva jornada que terei pela frente. Acredito que sobre esta rocha, sobre a solidez desta experiência de vida monástica, poderei construir as obras que Deus pede de mim.

Penso em continuar lhe escrevendo estas cartas, que são não apenas para você mas para todos aqueles que desejam conhecer minha experiência e me acompanhar neste caminho de busca da Verdade e da verdadeira Vida. Só que, a partir de agora, já não serão mais “cartas do mosteiro” e, sim, “cartas de Nova Jerusalém”!

Obrigada pelo carinho de sua escuta,

Com amor eterno,

Mami

#7 Carta – Sobre minha experiência de Jesus

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s