Contemplação de uma Estrela

Dos Diários do Mosteiro – 18 de abril de 2017

Contemplo aquela estrela no céu.
Que distância nos separa?
Quantos bilhões de anos-luz entre nós?
Um espaço vazio astronômico entre eu e ela
e, no entanto, eu a contemplo com meus olhos.
Ela existe para mim como um ponto brilhante na escuridão do céu.
Quem sou eu para estar aqui a contemplá-la?
Num planeta ridiculamente pequeno,
mergulhado na imensidão inconcebível do cosmos,
existe essa consciência que olha
e contempla aquela estrela.

Para os cientistas, aquela estrela é um corpo de plasma,
átomos em combustão,
uma fornalha de hidrogênio
que há muito tempo deixou de existir.
O que eu contemplo é apenas a imagem
de um corpo celeste que já se apagou
mas cuja luz ainda atravessa o cosmos
e chega a meus olhos.
Para a ciência, a estrela está morta
e meu olhar é vão.

Entre eu e a estrela, o tamanho do espaço vazio é inconcebivelmente imenso,
é uma distância que meu pensamento não consegue imaginar
porque supera as dimensões dos meus sentidos cotidianos.
Assim também quanto ao tempo que nos separa,
o tempo que a sua luz levou até atingir o meu olhar.
Posso imaginar um ano-luz, mil anos-luz talvez, mas como imaginar o que são, realmente, bilhões de anos-luz de distância?
No entanto, apesar da inconcebível distância entre eu e a estrela, no espaço e no tempo,
eu a contemplo agora
e ela existe para mim agora como ponto de luz na escuridão do céu.
Como isso é possível?
Que eu exista nesse universo inconcebivelmente imenso e antigo
e que eu exista como um ser que vê,
e um ser que vê e que tem consciência que vê,
como um ser que contempla e admira o que vê?
Neste ato de contemplar, a estrela se une a mim
e eu me uno a ela,
nos tornamos um.
Ela existe em mim,
em minha consciência dela
assim como existimos nAquele que criou a mim e a estrela.
No ato de contemplar,
Deus nos une.

Para Deus, não existe espaço, nem tempo.
Para Deus, não existem bilhões de anos-luz de distância de entre eu e a estrela.
O espaço e o tempo são véus que cobrem a realidade verdadeira,
são ilusões dos sentidos.
As verdades da ciência são reais,
mas se aplicam apenas ao mundo físico, ao mundo natural, ao mundo dos sentidos.
Para Deus, o ser humano é maior que uma estrela,
o coração de cada ser humano é maior, aos olhos de Deus, do que todas as estrelas do céu.

Contemplando estes céus que plasmastes
e formastes com dedos de artista
vendo a lua e as estrelas brilhantes
perguntamos: ‘Senhor, que é o homem,
para dele assim vos lembrardes
e o tratardes com tanto carinho?’
Pouco abaixo de Deus o fizestes
coroando-o de glória e esplendor
Vós lhe destes poder sobre tudo,
vossas obras aos pés lhe pusestes” (Sl 8, 4-7).

Cada ser humano que já existiu, que existe e que existirá
é amado por Deus,
é desejado por Deus,
é criatura de Deus.
Deus conhece cada um pelo seu nome,
cada ser humano foi criado por Deus com um projeto, cada um é único e especial para Deus.
Apesar de parecer que somos seres insignificantes, poeira de estrelas
flutuando aleatoriamente no vácuo,
no vazio inter-estelar,
a insignificância do nosso tamanho é enganadora.
No coração de Deus, as proporções, os tamanhos, as distâncias e durações
não são como aos olhos e sentidos humanos.
Quando olhamos apenas a realidade física, natural,
somos menos que um grão de areia,
poeira da poeira
flutuando na imensidão absurdamente vazia do cosmos.
Mas quando nosso olhar se abre para o transcendente, para o sobrenatural,
quando contemplamos a realidade
com a luz do Espírito de Deus,
tudo se transforma e se inverte.
O tempo não flui mais como um rio do passado para o futuro, continuamente,
mas o tempo é como um oceano, no qual tudo é, tudo existe agora.

A consciência não se localiza num espaço,
não há distâncias nem separações,
tudo está em todos.
A consciência de Deus tudo banha, envolve e sustenta,
todos os corações estão unidos no amor
que dá vida a todos.
Na contemplação do mundo sobrenatural,
tudo subitamente faz sentido,
nada é por acaso.
A Bondade divina tudo providencia,
nada nos falta,
somos filhos amados de Deus
e não há nada a temer.

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