#7 Carta – Sobre minha experiência de Jesus

11 de outubro de 2017

Filho amado,

Em todas as cartas que eu lhe escrevi até agora, omiti intencionalmente duas palavras. Elas são tão fundamentais para minha experiência e, ao mesmo tempo, tão distorcidas, mal compreendidas, espoliadas e exploradas, que evitei mencioná-las propositalmente até que pudesse navegar com você, com calma, através dos significados que elas têm para mim. Depois de tantos preâmbulos (5 cartas!), acho que agora já consigo achar uma forma, um caminho, uma linguagem para começar a falar com você sobre a minha experiência pessoal de “Jesus Cristo”.

Tateio, hesitante, procurando uma maneira de falar da minha experiência de Jesus Cristo que evite as armadilhas dos lugares-comuns, dos jargões religiosos que poderiam te afastar, te causar um rechaço antes que eu conseguisse comunicar a minha experiência com plenitude. Por isso, enquanto você lê esta carta, peço que coloque de lado tudo o que você conhece a respeito da “cristandade”, do imperialismo “cristão”, do puritanismo e do moralismo pregados em nome de “Jesus Cristo”, que suspenda todos os seus conceitos anteriores sobre ele, e que acompanhe minha narrativa com a mente vazia (dentro do possível!) e o coração aberto.

Antes ainda, um pouco de contexto.

Meu conhecimento de Jesus, de quem ele era, do que fez, do que disse, do que ensinou, de como viveu e morreu, não é um conhecimento “objetivo”. A minha principal fonte de informações sobre ele, sobre sua vida e seus ensinamentos, são os evangelhos. No entanto, os evangelhos não são livros históricos, não são “biografias” no sentido que nós conhecemos hoje. As palavras que Jesus proferiu não foram estenografadas pelos seus discípulos e registradas no momento mesmo em que as enunciava. Os autores dos evangelhos não eram repórteres cobrindo a vida de Jesus, e os fatos ali narrados não são descrições históricas precisas e objetivas dos eventos à medida que ocorriam. Os evangelhos foram escritos algumas décadas após a morte de Jesus, a partir da tradição oral das primeiras comunidades de discípulos de Jesus, dos primeiros “cristãos”.

Esse preâmbulo, essa contextualização do que são os evangelhos, é para enfatizar que a minha experiência de Jesus Cristo não se baseia em um conhecimento de base histórica, empírica, objetiva. Os evangelhos são o ponto de partida, são a base da minha experiência, mas ela transcende, vai além dos significados objetivos das palavras ali escritas. Na linguagem católica, nós dizemos que este é um conhecimento que se dá pelo “Espírito” e no “Espírito”. Mas receio que mencionar o Espírito para você para tentar explicar minha experiência de Jesus não vai resolver meu problema de comunicação! Ao invés de simplificar e esclarecer, corro o risco de complicar e tornar o texto mais obscuro…

Vou, então, tentar descrever a experiência como ela é, sem recorrer aos termos mais abstratos da mística e da teologia.

Existem muitas maneiras de ler os textos dos evangelhos. Eu posso fazer uma leitura casual, rápida, superficial, buscando apenas o conteúdo mais aparente, o significado mais literal das palavras. Ou posso fazer uma leitura crítica, histórica, racional, procurando apreender o contexto em que aquelas palavras foram escritas e os sub-textos, as entrelinhas, os significados que remetem à historicidade dos autores dos evangelhos e dos fatos ali narrados.

Mas a minha experiência pessoal de Jesus se origina de uma outra forma de ler os textos dos evangelhos. Nessa forma de leitura, que chamamos de “leitura orante”, meu coração é tocado diretamente pelas palavras. É como se as palavras fossem lanças, flechas que atravessassem as camadas do meu intelecto, da minha cultura, dos meus preconceitos e atingissem o centro do meu ser. As palavras parecem se revestir de vida própria, elas carregam sentidos e significados muito além dos seus significados comuns e, ao atingirem o meu coração, é como se o deixasse em brasa. Sinto um calor, um fogo, como se um sol se acendesse no meu peito, no interior da minha alma.

Você deve estar pensando que sua mãe está maluca, está surtando, tendo delírios psicóticos… Você entende porque precisei de tantos preâmbulos para poder começar a falar da minha experiência de Jesus para você? Você entende porque tenho tanta preocupação com as palavras, porque insisto tanto, repetidamente, que essas palavras são apenas analogias, metáforas visuais, que elas são limitadas para comunicar a plenitude da experiência? É que assim que tento colocar no papel, em palavras, o que vivencio, sinto uma frustração monumental! Leio as palavras que escrevi e penso: ‘Mas não é bem isso! Isto é só uma aproximação…’ As palavras só apontam para a experiência, mas não conseguem, realmente, comunicá-la…

Lembrei-me agora de um texto que escrevi enquanto ainda estava no mosteiro.  É um rascunho de uma carta que preparava para você, com data de seis de abril de 2017. Neste texto, eu já estava buscando uma maneira de falar de Jesus Cristo, mas achei depois que ainda era muito cedo, que precisava preparar melhor o terreno antes de trazer esta experiência para você. Vou copiar aqui esse texto que escrevi seis meses atrás, talvez agora ele possa fazer sentido para você:

‘O Padre Dondici diz que “o cristianismo é uma religião muito difícil”. Adoramos um Deus que se fez homem, um Deus servo, um Deus humilhado e torturado, morto preso a uma cruz. Que Deus é esse? Que loucura adorar um Deus vencido, derrotado, fraco, humilhado. A cruz é um escândalo, adorar um Deus morto na cruz é loucura.

Como explicar essa loucura? Será que eu conseguirei colocar em palavras o mistério dessa fé louca e irracional, que escandaliza e choca?

Como é que eu acredito que Jesus Cristo é realmente o Filho do Deus vivo? Por que eu acredito e acolho suas palavras no meu coração? Que poder que as suas palavras, como estão narradas nos Evangelhos, exercem sobre mim? Que poder é esse?

É difícil explicar ou descrever esta experiência, de escutar a Palavra do Evangelho e ter a experiência de estar escutando a verdade pura, a verdadeira verdade, a verdade anterior a toda verdade, ao que é verdadeiramente real, anterior à realidade conhecida, sentida, percebida.

A experiência é como a de ter uma flecha atravessando o coração, atravessando camadas e camadas de crenças, sentidos, certezas, dúvidas, medos, memórias, conhecimentos, de ter tudo isto atravessado a um só tempo e chegando no centro do meu ser, no centro da minha realidade, rasgando meu ser e jorrando uma luz indescritível, uma luz reveladora que simplesmente diz: ‘Eu sou a Verdade, o Princípio e o Fim, o tudo e o todo, Eu sou’. E tudo o mais é apenas ilusão, aparência, imagem, sombra.

Essa é, de forma alegórica, uma tentativa singela de tentar descrever esta experiência de escutar Cristo falando para mim através de suas palavras no Evangelho. Não é uma experiência puramente racional, dedutiva ou lógica. Eu acredito na divindade do Cristo não porque analisei logicamente os argumentos a favor da tese e concluí que esta é a conclusão lógica diante dos fatos históricos, arqueológicos, filosóficos e científicos.

A experiência pessoal da fé veio antes, é anterior à busca racional de explicar esta experiência. Durante muitos anos, busquei formas e caminhos para explicar racionalmente e cientificamente a experiência da fé. Apesar de ser possível, em grande parte, explicar esta experiência, eu me sentia frustrada, pois estas explicações não me satisfaziam, não aquietavam minha alma, pois ficavam sempre aquém da experiência.

Ate que descobri a expressão “mistérios da fé” e meu coração se aquietou em gozo e regozijo. É isso! A experiência da fé é a experiência do mistério profundo do ser e da existência’.

Filho amado, esta carta já ficou muito longa, vou terminando por aqui… não sei quanto que consegui comunicar da minha experiência, mas sei que nossa travessia precisa ser lenta… esse mar é profundo demais e o horizonte não tem fim… vou respirar fundo e retomar a navegação com a próxima brisa…. Na linguagem bíblica, o Espírito é muitas vezes representado como sopro, vento, brisa… Que o Espírito sopre em nossa barca e nos conduza para que, pouco a pouco, eu consiga comunicar a você a experiência do meu encontro pessoal com Jesus Cristo e do que ele é hoje, para mim, na minha vida…

Com infinito amor,

Mami

#8 Carta – Sobre o reino de Deus

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