#8 Carta – Sobre o reino de Deus

19 de outubro de 2017

Filho amado,

A linguagem religiosa é um pouco como a poesia. Ela é permeada de símbolos, palavras que têm o poder de condensar em si todo um universo de experiências, narrativas e sentidos. Para ler um texto escrito nesta linguagem é preciso se colocar no estado de espírito, na disposição mental apropriada para captar esses sentidos e significados, da mesma forma como não se pode ler poesia como quem está analisando um tratado filosófico ou conduzindo um experimento científico.

Para mim, um dos símbolos mais fundamentais do cristianismo, que mais condensa a experiência do mistério sagrado é a expressão “reino de Deus”. Obviamente, não se faz referência aqui a um reino no sentido de uma instituição geopolítica e social. Não é um reino como concebemos em nossa linguagem comum. É uma metáfora poética, uma forma concisa e condensada de se referir à realidade definitiva que Deus preparou para nós e para qual somos destinados.

Nessa carta, filho amado, eu quero tentar compartilhar com você a minha experiência pessoal desse reino e da sua promessa.  Como nas outras cartas, não quero apresentar argumentos teológicos nem explicações da exegese bíblica, mas somente o que o reino de Deus significa para mim, como o experencio hoje, na minha vida.

Primeiramente, eu experencio o reino de Deus como mistério. Sua existência transcende a realidade física, material, por isso, ele não pode ser totalmente explicado, descrito, compreendido e só podemos nos referir a ele com analogias e metáforas. Jesus usava parábolas toda vez que queria falar do seu reino.

O reino de Deus é uma realidade que experencio ao mesmo tempo dentro e fora de mim, presente paradoxalmente no aqui-e-agora e como promessa futura. Ao mesmo tempo está aqui e ainda não está. Está aqui como promessa, como antecipação, como vislumbre do que será. Tem uma frase do Novo Testamento, da Carta aos Hebreus, que fala exatamente disso: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera…” (Hb 11,1). Cada vez que experencio o amor, a doação, a fraternidade, o perdão, o desapego, a alegria e a paz, estou experenciando o reino; ele é uma realidade futura que se infiltra, que impregna, que invade o presente.

Não é possível visualizar o reino de Deus com nossa imaginação, pois as nossas percepções mentais estão limitadas pelas formas sensíveis do espaço e do tempo, mas podemos traduzir a experiência do reino em alegorias e metáforas. Numa descrição alegórica, dizemos que o reino de Deus é a morada definitiva de todos os seres humanos que escolherem ali habitar. Nessa morada, eterna, não há dor, não há morte, não há treva, não há egoísmo, não há maldade. Ali reina, absoluto, o amor. Todos que ali habitam estão unidos e comungam do mesmo sentimento de amor fraterno. A luz que ali brilha é indescritível, a paz é absoluta, completa. Todos os corações estão plenos de gratidão e louvor ao Senhor da vida, ao Pai de bondade que tudo cria e sustenta no seu amor.

O reino de Deus é a boa notícia trazida por Jesus (“evangelho”, do grego evangelion significa, literalmente, boa notícia). Todos os ensinamentos de Jesus e toda a sua vida buscavam nos mostrar como construir o reino de Deus aqui e agora, na vivência do amor, do perdão, da paz e da fraternidade e como ter a certeza de que nele habitaremos em plenitude quando deixarmos este mundo.

A questão fundamental, então, é se acreditamos nas palavras de Jesus (tal como chegaram até nós) ou se achamos que o reino de Deus é apenas wishful thinking, um sonho, uma fantasia… Certamente, a resposta a essa pergunta é profundamente pessoal. Nem mesmo todos os tratados de teologia e filosofia, nem mesmo todas as teorias psicológicas e investigações científicas poderão responder a esta pergunta. Somente pela experiência pessoal de Deus é que podemos reconhecer a verdade do seu amor, da sua bondade e da presença do seu reino.

As implicações e as consequências de acreditar verdadeiramente nesse reino são amplas e radicais na vida de qualquer pessoa, como certamente foram na minha vida. Numa próxima carta, eu quero lhe contar sobre essas implicações e o que significa, para mim, hoje, viver a radicalidade da boa notícia do reino de Deus através do seguimento de Jesus…

Com todo o amor do meu coração,

Mami

#9 Carta – Sobre a linguagem da fé

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