Nosso Coração está em Deus…

26 de setembro de 2016

Texto escrito durante retiro no Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR).
Carta imaginária que escrevi para Dom Bernardo Bonowitz, em preparação para conversa que teria com ele no dia 27 de setembro de 2016.

 

Padre Bernardo,

Sou uma criança no mundo da espiritualidade. Sou uma criança que ainda não aprendeu a ler e não conhece os conceitos da fé.

Desde a minha juventude, de forma muito precoce, procurei na filosofia humana as respostas para os anseios profundos da minha alma. Eu não sabia, então, que o que eu sentia era sede de Deus e o que eu buscava era acolher e contemplar sua Palavra. Por isso, era uma leitora voraz, devorava livros numa sede que nunca se saciava. Eu tinha fome de Deus e a filosofia e a ciência humana não me davam sequer migalhas para mitigá-la.

Quanto mais eu lia, mais fome eu sentia. Nada me saciava. Nenhum filósofo, nenhuma teoria científica explicava o que permanecia inexplicável: o mistério do Ser, da vida e da consciência.

Por isso, apesar de doutora na ciência dos homens, sou criança analfabeta na ciência da fé.

Meu vocabulário é tosco, meus conceitos, simplórios. Ao tentar comunicar em linguagem humana o que experencio e contemplo quando Deus fala comigo e se mostra para mim, me torno agudamente consciente da pobreza dos meus conceitos e do abismo da minha ignorância.

Confio, Padre Bernardo, que o senhor poderá me instruir, corrigindo os equívocos dos meus conceitos e indicando a literatura apropriada para a minha instrução nas doutrinas e nos estudos da fé.

Gostaria de começar pelo significado que a palavra “coração” tem em minhas experiências:

O coração é o ser do meu ser, meu ser fundamental. É a sede da minha consciência.

É a origem dos meus pensamentos, de minha vontade, de minhas escolhas e decisões.

É a sede dos meus sentimentos, onde eles ficam guardados. É também onde ficam guardadas minhas memórias.

O coração é a morada do meu ser eterno, imortal.

E o coração é o portal, a ponte, a passagem que me une a Deus.

Deus fala e vive em mim “através” do meu coração.

Deus está no meu coração, ele é a sua morada, o seu templo.

O Senhor habita em mim, no meu coração.

Eu escuto a Deus quando Ele fala em meu coração.

O coração não tem uma localização específica no meu corpo. Ele não corresponde ao coração de carne, apesar de que eu sinto o centro do coração na altura do centro do meu peito. Mas o coração não está “dentro” do corpo.

Ou melhor, minha alma vive neste corpo ligada a ele pelo coração.

Acho que é o coração que liga, que amarra, que unifica meu corpo e minha alma.

O coração é como um portal através do qual o mundo invisível, sobrenatural, se comunica conosco.

O sacrifício do Verbo rompeu o véu do Tabernáculo. Acho que isso quer dizer que o véu dos nossos corações foi arrancado e agora podemos ver, contemplar e acolher o mundo invisível, o Reino de Deus.

Sem esse véu, o Reino de Deus pode entrar e preencher nossos corações. Mas, para isso, o coração precisa estar vazio, isto é, estar puro. Quanto mais puro o coração, mais dilatado, e maior é a presença de Deus e de seu Reino no coração.

A renúncia, o desapego, a humildade, o abandono da fé esvaziam o coração e o dilatam. Quanto mais esvaziado o coração, maior a presença do amor de Deus.

Todos os corações humanos estão ligados, conectados. Há um só coração.

O Espírito Santo, o amor de Deus, une todos os corações de forma que, na verdade, somos todos um só coração.

Uma pequena e limitada analogia visual pode ilustrar este significado:

Imagine um grande aquífero subterrâneo e diversos poços perfurados sobre ele. Todos os poços estão interconectados, pois deles brota a mesma água, todos estão ligados pelo aquífero subterrâneo. O aquífero é um só e cada poço é apenas um pequeno acesso a ele.

Quando estamos em oração, acessamos, por assim dizer, a água profunda deste aquífero, que conecta todos os outros poços, todos os outros corações orantes. Somos todos unidos pela água viva do Espírito Santo.

Mas a analogia termina aí, porque ela não dá conta de ilustrar o resto da experiência.

O mundo invisível, aquele ao qual estamos conectados pelo coração, é a verdadeira realidade. É o Reino de Deus. Lá não existe separação, não existe tempo nem espaço, não existe morte nem maldade. Lá, todo o Ser é Bem e bondade, amor infinito, é a glória de Deus.

Todos os santos, anjos, mártires e apóstolos comungam conosco através dos nossos corações.

Orar é abandonar os sentidos do mundo intencionalmente e convergir a totalidade da minha consciência para escutar o coração.

É silenciar os ruídos da minha mente e dos meus sentidos e abrir meu coração para o silêncio.

E, com o coração aberto, amar a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. E o amor se expressa, se manifesta como gratidão, louvor, adoração.

A Verdade é Cristo, a Verdade é o Logos, a Palavra.

A Verdade habita no mundo invisível, inacessível aos sentidos físicos.

O coração é inacessível aos sentidos físicos, assim como o são os pensamentos e a consciência.

O coração é invisível porque ele pertence ao mundo invisível, a sua natureza é celeste. Ele é um poço, um vazio, um buraco nesse mundo terreno. Ele não tem realidade material, ele é o vazio através do qual o Espírito desce até nós.

(continua no próximo post)

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