#9 Carta – Sobre a linguagem da fé

31 de outubro de 2017

Filho amado,

Sei que a linguagem religiosa que estou utilizando em muitos dos meus textos soa arcaica e anacrônica para a mentalidade e cultura contemporâneas. Tenho utilizado palavras e símbolos do “imaginário” católico que são muito fortes e dramáticos para o mundo secular de hoje: sangue, sacrifício, cordeiro imolado, pecado, salvação, cruz… Sei que essa linguagem choca, causa estranhamento e até mesmo repulsa para o ouvido moderno, liberal, culto e racional. Esse estranhamento é compreensível e até inevitável, pois essa linguagem tem origem num tempo e numa cultura muito distante das pessoas do mundo de hoje. Essa era a linguagem usada pelos judeus da Palestina há três mil anos e é surpreendente que se mantenha ainda viva e com tanta força entre nós.

Para mim, essas imagens e palavras têm o poder de me transportar a uma dimensão que transcende a linearidade e a lógica das aparências do mundo. Talvez por serem palavras e imagens tão antigas nos remetam a experiências e significados arquetípicos que transpassam o tempo e a história. Por isso, ao escutar essas palavras, é necessário acessar esse significado transpessoal, transcultural e transcendente para que sejam verdadeiramente compreendidas.

Foi isto que aconteceu comigo. Antes do meu retorno ao catolicismo, minha racionalidade, minha mentalidade moderna, liberal e progressista, não conseguia acolher estas imagens e estes símbolos. Meu coração estava fechado por preconceitos e eu só conseguia ver, nessas imagens, as sombras de um passado medieval, obscuro, grotesco, irracional. Eu buscava, ao contrário, uma fé que fosse límpida, clara, racional, autoevidente, que se explicasse a si mesma, uma fé sem mistérios, científica, asséptica. Eu rejeitava o vocabulário e o imaginário católicos considerando-os como meros resquícios de uma tradição milenar, mas caduca, há muito superada pela racionalidade do mundo moderno, pelo progresso das ciências e da razão.

A grande mudança, a mudança radical que ocorreu na minha vida foi quando desarmei meu coração da couraça da arrogância intelectual e desmanchei a barreira do preconceito. Com essa nova abertura do coração, comecei a “ver” os significados transcendentais destes símbolos. Despojada dos preconceitos e da vaidade intelectual, consegui vislumbrar e vivenciar, no meu íntimo, as experiências dos “mistérios da fé” a que esses símbolos e imagens remetiam.

Acho que a analogia musical pode novamente me ajudar a comunicar para você a qualidade dessa experiência. É como se, antes, eu tivesse diante de meus olhos a partitura completa da “Paixão Segundo S. Mateus” de Bach. Eu olhava para a partitura, conseguia ler as notas, identificar a tonalidade, os ritmos, os compassos, mas não tinha ainda a experiência de “escutar” a música sublime de Bach. As imagens do sacrifício, do sangue do cordeiro imolado, da salvação, da remissão dos pecados, da nova aliança etc. eram apenas anotações no papel, partitura sem vida diante de meu olhar perplexo e incrédulo. No entanto, quando escutei a música, representada por essas notas no papel, cantada e tocada em sua plenitude, a experiência foi (e continua sendo) transformadora e inenarrável.

A religiosidade que eu vivia antes, lógica, asséptica, “normalizada”, moderna e científica, limitava a minha experiência de Deus e a compreensão do seu amor. À medida em que passei a contemplar os mistérios da fé e me entregar à experiência do amor de Deus, esses símbolos se tornaram como que chaves sagradas que abrem meu coração a um entendimento e a uma visão mais profunda, mais abrangente, mais plena de Deus, do seu amor, da sua bondade e da sua glória.

Talvez, com esta carta, eu esteja querendo apenas lhe tranquilizar que sua mãe não enlouqueceu, não emburreceu, nem se tornou reacionária, fundamentalista ou moralista por utilizar, em seus textos, esse “imaginário” católico quase barroco.

É verdade que eu sou, agora, uma nova pessoa; mas sou também a mesma pessoa. O sentido da minha vida é novo, o caminho que estou trilhando é novo, a radicalidade da minha experiência é nova. Mas continuo sendo a mesma mãe que te ama, que te cuida, protege e ampara, que vive e que pensa, estuda, ensina, lê e escreve. Apesar de viver intensamente as experiências do transcendente, do eterno e do divino mistério, continuo aqui com você, ao seu lado, e continuarei sempre.

Com amor eterno e sem limites,

Mami

#10 Carta – Sobre o significado de ‘pecado’

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