#10 Carta – Sobre o significado de ‘pecado’

07 de novembro de 2017.

Filho amado,

Nesta carta, eu quero compartilhar com você as minhas reflexões e o meu entendimento a respeito de uma palavra, de um conceito, muito difícil, muito controvertido e incompreendido, que é o conceito de “pecado”. Como psicóloga e, ainda por cima, como psicóloga humanista, eu sempre tive muita resistência a usar essa palavra. Ela me parecia ser o resquício de uma mentalidade religiosa primitiva e irracional. Eu a associava com a ideia de inquisição, inferno, condenação, com o imaginário supersticioso de um Deus vingador e punitivo. Ainda hoje, sinto uma certa resistência em publicar textos meus em que uso a palavra “pecado”, como se eu pudesse ser associada aos moralistas, aos fanáticos fundamentalistas, àqueles que estão sempre prontos a condenar, àqueles que veem o mal e “satanás” em tudo e em todos que não são como eles.

No entanto, o conceito de “pecado” é fundamental em minha experiência de fé, só que ele tem, para mim, um significado totalmente distinto deste que é tão disseminado e vociferado pelos anunciadores do apocalipse. O conceito de “pecado”, para mim, é de uma sutileza extrema, é tão sutil que é quase inefável, quase inapreensível ao meu olhar espiritual. É um conceito que se situa no limiar entre o natural e o sobrenatural, na fronteira entre o visível e o invisível, no encontro entre céu e terra.

Reitero que minhas reflexões e meu entendimento sobre o “pecado” não são acadêmicas, não são fruto de estudos teológicos e eruditos, pois não possuo erudição alguma na área da teologia. Mas ouso compartilhar com você e com meus amigos que leem essa carta o que a palavra “pecado” significa para mim porque não quero ser mal compreendida e mal interpretada quando a utilizo em meus textos e poemas. Por isso, tentarei, humildemente, decifrar em palavras comuns, traduzir em sentenças lógicas o que eu quero dizer, o que eu significo, quando escrevo a palavra “pecado”.

Como tudo o mais que se refere à nossa natureza espiritual, a realidade e o significado do “pecado” também só podem ser apreendidos por analogia, através da contemplação, através da experiência de oração. As realidades espirituais, sobrenaturais por natureza, não podem ser “explicadas” de uma forma linear, causal, científica ou empírica. Para serem compreendidas, precisam ser contempladas, não explicadas. Aqui, com estas palavras, posso apenas apontar, colocar setas que indiquem aonde esses significados e essa realidade podem ser encontrados:

Quando você ama muito uma pessoa, ama demais, e faz algo que a fere, que a magoa, como você se sente?

Quando você estraga uma obra-prima, quando você quebra ou danifica um objeto precioso e de extremo valor, como você se sente?

Quando você é ingrato com alguém que lhe ama incondicionalmente e que lhe deu tudo o que você tem, inclusive a sua própria vida, com você se sente?

Esses sentimentos, muito humanos, se assemelham, se aproximam do sentimento da alma que reconhece que “pecou” diante de Deus.

Nós sentimos que “pecamos” quando compreendemos nossa ingratidão a Deus, nossas ofensas à lei de amor que rege o universo, a insensatez e a estupidez de nossas ações que causaram dor e sofrimento, a nós e aos outros, que feriram a harmonia do universo.

O pecado dói porque faz nos sentirmos culpados, mas não é Deus que nos culpa.

Deus nunca condena. Deus sempre ama, sempre perdoa, sempre compreende. Deus é infinitamente bom, incondicionalmente misericordioso e benevolente.

Mas, quando contemplamos as consequências de nossos atos egoístas, mesquinhos, orgulhosos, presunçosos e arrogantes sofremos com a dor da culpa de acusarmos a nós mesmos pelas consequências dolorosas e destruidoras de nosso “pecado”.

Pecar é agir sem amor.
O amor é Deus, então, pecar é se afastar de Deus.

Pecado e culpa são uma linguagem rica de significações.

Mas sei que esta linguagem pode ser usada para condenar, para violentar, para amedrontar. No entanto, não precisamos e não podemos abandonar estes conceitos, apesar de todos os abusos e distorções, porque eles remetem a experiências arquetípicas fundamentais da fé.

Pecado, culpa e perdão são uma tríade que remete à essência da experiência cristã da Redenção.  O amor de Cristo, na experiência religiosa profunda, é vivido como libertação do pecado e salvação de todas as culpas. Somos “redimidos” de toda culpa pelo infinito e misericordioso amor de Deus, em Cristo.  Essa experiência de “Redenção” é central à experiência cristã, à experiência do amor de Cristo.

Dizemos que Cristo não veio para nos condenar, mas para nos salvar.

Por isso, a tríade, na fé cristã é “pecado, culpa e redenção”, não é “pecado, culpa e condenação”.

No cristianismo, portanto, reconhecer-se como pecador diante de Deus é uma experiência de humildade e também de entrega confiante, de abandono aos braços misericordiosos do Salvador. Só experencia a redenção quem vivenciou a culpa, quem reconheceu que pecou diante da lei do amor de Deus.

É o paradoxo da experiência cristã de que quando nos sentimos menores, pequenos, aí é que somos elevados, exaltados; quando nos sentimos fracos, então é que somos fortes; quando nos reconhecemos pecadores, então é que somos salvos.

Filho amado, não sei se estas palavras lançaram alguma luz sobre o significado da palavra “pecado” em meus textos e poemas. Espero que você consiga me compreender um pouco melhor depois de ler esta carta. Meu desejo é que esse mundo de experiências místicas e religiosas em que “habito” não seja de todo incompreensível para você, e que minhas cartas e minhas tentativas singelas de explicação sejam como pontes entre este mundo sobrenatural em que tenho navegado e o mundo secular, natural e pós-moderno em que ambos habitamos.

Com todo o amor do meu coração,

Mami

#11 Carta – Sobre minha experiência da Igreja

 

 

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