#11 Carta – Sobre minha experiência da Igreja

16 de novembro de 2017

Filho amado,

Sei que muitos dos meus amigos e familiares estão até conseguindo compreender e aceitar a extensão e radicalidade das minhas experiências espirituais, mas sei que ainda encontram grande dificuldade em compreender e aceitar o meu retorno ao catolicismo. Sei que existe, em muitos deles, um forte sentimento anticatólico que provoca uma grande perplexidade em relação às minhas experiências religiosas na Igreja Católica.

Eu compreendo perfeitamente estes sentimentos anticatólicos porque eu também os sentia! Por isso, quero tentar compartilhar com você e com eles, nesta carta, o que mudou em mim em relação à Igreja, e o que ela significa, para mim, hoje.

A “Igreja”, na verdade, é um mistério. Não me refiro à Igreja enquanto instituição humana, histórica, enquanto organismo social, político, institucional, mas me refiro à Igreja em sua realidade sobrenatural, porque, além da dimensão humana, que podemos estudar e analisar objetivamente com os métodos históricos e sociológicos, a Igreja possui também uma dimensão sobrenatural, uma dimensão mística, transcendente.

Foi essa dimensão que eu passei a enxergar quando comecei a me reaproximar da Igreja, há cerca de três anos. A experiência que eu tive é como se “escamas” tivessem caído de meus olhos e eu começasse a enxergar pela primeira vez a realidade “por trás”, ou “por cima”, ou “anterior”, isto é, a realidade invisível da Igreja que se sobrepõe à sua realidade visível. Essa realidade invisível é um mistério, por isso não saberia como explicá-la ou descrevê-la. Existem muitos teólogos que se dedicaram e se dedicam a essa tarefa de iluminar, esclarecer, compreender o que é a Igreja na sua dimensão sobrenatural, espiritual, mas tentarei aqui, simplesmente, compartilhar alguns aspectos desse mistério que mais me tocam, que são mais significativos para mim, pessoalmente.

Contemplando este mistério da Igreja, eu compreendi que um dos pilares que a sustenta é aquilo que é chamado de “Tradição”. Até então, eu associava a palavra “tradição” com ideologias ultraconservadoras e reacionárias. Eu sempre tive uma mente progressista e uma alma revolucionária, e sempre me rebelei com a autoridade da “tradição”. Eu nunca podia aceitar que algo pudesse ser verdadeiro simplesmente por “tradição”, porque alguma autoridade ou poder constituído o afirmava. Eu precisava analisar os argumentos com a minha própria razão, conferir as evidências, checar os fatos. A autoridade da “tradição” nunca teve, para mim, o poder de definir o verdadeiro, o correto, o direito. Sempre fui uma defensora intransigente da autonomia da consciência e do seu poder de definir o verdadeiro e o falso. Tradição, para mim, era algo a ser superado, questionado, criticado. Eu buscava sempre o novo, o progresso, a evolução, a mudança. O catolicismo e sua tradição, para mim, faziam parte de um mundo antigo e ultrapassado, superado pela razão moderna, científica e libertária.

O que aconteceu comigo, então? Como pude mudar tão radicalmente e abraçar o catolicismo, uma religião que possui, como um dos seus pilares, a própria “Tradição”?

O que eu passei a enxergar é que a Tradição que sustenta a Igreja, e que é como que a sua coluna dorsal, não é uma mera tradição humana. Essa é a chave para compreender a Igreja e contemplar o seu mistério. Essa Tradição é como que um tesouro sagrado, um tesouro divino que foi depositado na Igreja pelos primeiros apóstolos, pelas primeiras comunidades cristãs, aquelas que testemunharam, diretamente, com seus próprios olhos, mãos e ouvidos, o Cristo ressuscitado. Compreendi que o legado dessas primeiras “testemunhas”, desses primeiros apóstolos, é preservado até hoje naquilo que chamados de “Tradição”. A Igreja conserva vivo esse tesouro em sua liturgia, em seus ritos, em seus sacramentos, em sua espiritualidade, em sua teologia. Mas não é um tesouro físico, não é um conjunto de normas, de prescrições, de palavras mágicas, de ritos arbitrários. A natureza desse tesouro é totalmente sobrenatural, espiritual.

Para ver, para reconhecer esse tesouro é preciso a disposição interna, o “olhar da fé”, aquilo que comentei com você numa das minhas primeiras cartas. Certamente, muitas das pessoas que se consideram católicas percebem apenas a superfície, a externalidade, as aparências da Tradição e a confundem e a distorcem como tradicionalismo. Muitos confundem o atemporal com o antigo, com o velho, e ao invés de viverem a Tradição como uma dimensão viva e sempre renovada do Espírito de Deus, a corrompem e a transformam numa tradição de museu, num conjunto de normas e prescrições com cheiro de mofo e naftalina.

Creio que esse é um dos maiores desafios da Igreja, hoje. Desvelar, revelar ao católico comum o mistério transcendente da Tradição, invisível, escondido nos ritos litúrgicos e, ao mesmo tempo, libertá-lo do tradicionalismo que aprisiona, que encerra, que sufoca a vida do Espírito na Igreja.

Jesus nos fala, no Evangelho de João, que o Espírito “sopra aonde quer” e que ninguém “sabe de onde vem e para onde vai”. Assim eu entendo que o Espírito de Deus não sopra apenas na Igreja Católica, mas ele age, vive e plenifica todas as religiões e todos os corações que, independentemente de acreditarem ou não em um Deus pessoal, buscam o amor, a fraternidade e a paz. Deus está em toda a parte, em todas as religiões, em tudo. A Igreja Católica não é o único caminho, nem é toda a verdade. Mas, aos meus olhos, ela é a “mãe” de todas as religiões cristãs, a fonte primeira, a raiz fundamental da sabedoria e da espiritualidade cristã.

Na teologia católica, dizemos que existe uma “Igreja Celeste” e uma Igreja humana, na terra, que chamamos de “Igreja peregrina”. No dia de hoje, no dia em que escrevo esta carta, uma das leituras da liturgia da missa é um texto de um livro do Antigo Testamento chamado “Livro da Sabedoria”. Ao ler este texto, compreendi que, ao descrever as qualidades da “sabedoria”, o autor também estava se referindo, de forma figurativa, à essa Igreja Celeste. O texto diz:

“Ela é um reflexo da luz eterna,
espelho sem mancha da atividade de Deus
e imagem da sua bondade.
Sendo única, tudo pode;
permanecendo imutável, renova tudo;
e comunicando-se às almas santas de geração em geração,
forma os amigos de Deus e os profetas”. (Sb 7,26-27)

É através da união, da comunhão com a Igreja Celeste, sobrenatural, que a Igreja humana, peregrina na terra, cumpre sua missão, que é evangelizar, isto é, anunciar a boa notícia do Reino de Deus. É essa Igreja Celeste que une todos os fiéis e que dá sentido à Igreja enquanto instituição humana. Apesar de todos os erros, todos os crimes, todos os enganos e equívocos cometidos pelas pessoas da Igreja ao longo de seus dois mil anos de existência, ela continua sendo a servidora da Igreja Celeste na terra, servindo-se dos tesouros da Tradição para anunciar a boa notícia do Reino, para levar a paz e o amor de Deus à humanidade sedenta.

Enquanto instituição humana, a Igreja é imperfeita e pecadora, mas, sendo peregrina, está continuamente buscando igualar-se e assemelhar-se cada vez mais à Igreja Celeste, “espelho sem mancha da atividade de Deus”.

Numa outra carta, quero lhe falar com calma de uma das riquezas escondidas neste tesouro da Tradição da Igreja que comecei a descobrir, deslumbrada, quando retornei ao catolicismo. São os escritos, dos primeiros séculos do cristianismo, dos primeiros “teólogos” da Igreja, chamados genericamente de “Padres da Igreja”. O tesouro dos Padres da Igreja é, até hoje, a coluna de sustentação de toda a teologia, de toda a liturgia, de toda a vida espiritual da Igreja. No entanto, apesar de ser um tesouro de beleza deslumbrante e de sublime luz espiritual, permanece relativamente desconhecido e oculto da maioria dos católicos praticantes. Fiquei extasiada quando descobri a existência desse tesouro espiritual na Tradição da Igreja. Minha antiga concepção da Igreja como uma instituição velha, retrógrada, com uma teologia arcaica, primitiva, permeada de superstições e crendices irracionais desmoronou-se completamente. Descobri, ao contrário, que a Igreja guarda um tesouro de valor inestimável e que, servindo-se desse tesouro, está continuamente a renovar tudo, “comunicando-se às almas santas de geração em geração e formando os amigos de Deus e os profetas”.

Os “Padres da Igreja” diziam que a Igreja é casta e prostituta, santa e pecadora. Eu continuo, sem dúvida, vendo e percebendo os erros, equívocos, enganos e crimes da Igreja, que não são poucos. Mas o que passei a enxergar também e que antes se ocultava ao meu olhar é a dimensão divina, espiritual e transcendente, o tesouro sobrenatural da Tradição e o sopro de Deus que, através dela, em tudo penetra.

Filho amado, espero que esta carta tenha lhe ajudado um pouco a compreender a minha experiência de retorno ao catolicismo e o que a Igreja Católica significa para mim, na minha vida, hoje.

Com amor sem fim,

Mami

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