Ontem à noite, ao final da oração das Completas, finalmente eu consegui aquietar, sossegar meu coração, e escutar o que Deus queria me falar. As palavras do Frei João Carlos no começo da tarde já tinham me ajudado a me centrar novamente, a voltar para o meu centro, que é minha vida de oração. A dor continua dentro e fora de mim, o sofrimento inimaginável, imensurável, de milhares de pessoas que choram e gemem e se desesperam diante de tanta destruição e devastação. No entanto, na noite dessa dor, finalmente consegui ver o clarão do amor de Deus e consegui me desapegar da dor para escutar a Palavra que o Senhor tinha para me dar.
Quero escrever, registrar em palavras humanas, o que Ele me mostrou na luz da alma, mas sei que as palavras serão poucas, limitadas. Rogo ao Espírito Santo que venha em socorro da minha fraqueza e coloque sua Palavra no meu coração, na minha mente, para escrever o que Ele quer que seja escrito.
Eu contemplava o Crucificado. Então, compreendi que ali, suspenso na Cruz, Ele tudo via. Ali preso à Cruz, Ele viu cada um de nós e sentiu a dor de cada um de nós. Suspenso na Cruz, Cristo sofria a dor de cada ser humano que existe, existiu e existirá sobre a terra. Deus quis sofrer a nossa dor.
Jesus sofreu na sua carne a dor de cada flagelado dessa enchente, de cada pessoa que perdeu tudo, sua casa, suas memórias, que teve sua vida subitamente devastada, destroçada. Ali, preso à Cruz, a dor de cada um era a dor de Jesus. Ele quis assim. Deus quis sofrer nossa dor. Deus está conosco em nossa aflição, em nosso desespero, em nossa angústia. Ele quis estar conosco.
Eu olhava o Crucificado, e Ele me consolava. A proximidade de Deus, sua presença em nossa dor, sua escolha por viver nossa humanidade em toda sua fragilidade, me consolou. Do alto da Cruz, Jesus olhava cada um de nós, todos nós. O olhar de Deus, suspenso na Cruz, me trouxe Paz, esperança, consolação. Deus não apenas sabe da nossa dor, Ele não apenas vê a nossa dor, mas Ele também sofre conosco a nossa dor, e este sofrimento é revelado no Cristo Crucificado. Não estamos sós. Deus nos deu o seu Filho, Deus nos deu seu dom mais precioso, como prova do seu amor por nós. Agora dói. Dói tudo, dói demais, a dor é um abismo que não parece ter fim. Mas o Crucificado que acolhe em sua carne a nossa dor é a nossa esperança. Depois de toda essa dor, morte e destruição, haverá, sim, a ressurreição, a vida verdadeira, a vida gloriosa no coração de Deus. Mas, agora, fiquemos com Ele pois Ele está conosco.