Sede de Deus

No final da década de 70, meus pais construíram uma casa em Garopaba, quando ela era somente uma pequena vila de pescadores. Meu pai era aposentado, e passávamos ali todo o verão, durante as férias escolares.

Desde jovenzinha, meu coração de eremita me levava a uma praia deserta ao lado de Garopaba, a praia de Siriú, que é uma reserva da marinha, totalmente inabitada. Após uma caminhada de dois quilômetros pela areia da praia, eu subia um pequeno morrinho na divisa das praias de Garopaba e Siriú, e me sentava no topo de uma grande pedra para contemplar, em silêncio, a imensidão do mar. Eu amava ficar ali, por uma imensidão de tempo, naquele silêncio permeado do cantarolar das ondas batendo nas pedras, inebriada da beleza esplendorosa do oceano azul e do horizonte sem fim. Ali eu ficava, como uma eremita que eu ainda não sabia que era, contemplando os mistérios do ser e da existência. Eu não sabia, mas isto era minha oração! Eu ainda não conhecia a Palavra de Deus, e minha contemplação era repleta de perguntas e de angústias. Eu buscava o sentido de tudo aquilo, eu buscava Deus em tudo aquilo, eu buscava a resposta para a pergunta mais profunda da minha alma: quem era eu? Por que existe o universo? Como encontrar Deus? Minha oração era uma contemplação, minha contemplação era uma angústia em busca de resposta, era uma sede em busca da água viva!

Há poucos dias, em oração, eu compreendi que não é apenas o espaço físico do Eremitério que é um Santuário do Silêncio, mas que meu coração também é um Santuário do Silêncio! O Eremitério reflete exteriormente o Santuário que é a obra de Deus no meu coração. O Eremitério do Coração de Maria ao pé da Santa Cruz é também o meu coração!

Então, hoje, enquanto lavava a louça do jantar, eu compreendi também que o silêncio do Santuário não é um vazio de palavras, não é uma ausência de sons ou de pensamentos. Compreendi que o Silêncio do Santuário é como um olho d’água, do qual está sempre, continuamente, brotando a água viva que vêm de Deus, da profundeza de Deus na terra da minha alma. Esse silêncio é um brotar, um fluir de água viva que brota mansamente… O silêncio é esta mansidão, este fluir sem pressa, esta água que brota para fecundar a terra do mundo. Então vi que a água que brota deste olho d’água do silêncio do meu coração segue seu caminho, prossegue sempre, nada a detém, encontra outros riachos, outros afluentes e, juntando-se aos grandes rios, chega ao seu destino: o oceano. Foi então que me lembrei do meu jovem coração de eremita sobre a rocha contemplando o mar de Siriú… Da contemplação silenciosa do oceano, repleta de angústias e perguntas sem respostas, para a contemplação silenciosa do Eremitério, da água mansa que brota do olho d’água, na mansidão e na paz de quem encontrou a fonte de toda água, a resposta para toda pergunta! Na Palavra de Deus meu coração encontra repouso, no Pão de Deus minha alma se delicia, na entrega da oração incessante, minha sede de Deus se sacia!

Meu êxodo foi um caminhar em busca da fonte. Meu ponto de partida foi o oceano e seus mistérios, sua imensidão, o horizonte inacessível. Meu ponto de chegada é o olho d’água de onde brota a água que preenche todo o oceano!

Foto: Praia do Siriú/arquivo pessoal

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