Hoje eu me lembrei deste texto que escrevi há 6 anos no meu diário. Naquela época, eu ainda não havia encontrado para mim um Diretor Espiritual em Porto Alegre, e eu sofria muito por não ter ninguém para me acompanhar no meu discernimento vocacional. Compartilho aqui este texto, louvando e agradecendo a Deus que me conduziu com mão forte e braço estendido para suas águas mais profundas.
14 de fevereiro de 2020
Hoje está bem claro para mim, transparente como cristal, qual é a minha vocação: Cristo me chama para ser um coração orante, Ele me pede que eu ore sem cessar, e é para isso que Ele me preparou.
Mas isso é imenso, é grande demais! É como se Deus tivesse me chamado para a beira da praia com um pequenino bote e um par de remos e, diante da imensurável vastidão e poder do oceano à minha frente, me dissesse: “Vem!” Ele me chama para navegar em seu oceano de amor, em seu oceano infinito e esplendoroso, em suas águas profundas, em seu oceano de glória apenas com um pequeno bote e um par de remos! Sinto tremor, excitamento, alegria e espanto! Me delicio com as maravilhas do oceano e com o esplendor de suas águas, mas também tremo diante de seu poder, de sua vastidão e de seu mistério! Apesar do tremor, me entrego a essa loucura, me lanço ao mar no meu pequeno bote, pois Deus me dá, com o seu chamado, também a graça da fé! Confio! Eu confio! Eu amo! Eu amo esse oceano, amo essas águas, amo esse mar! E confio que é Deus quem me chama e, se Ele me chama, eu posso confiar! Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus que me amou e por mim se entregou.
Oração contínua. Orar sempre, sem cessar. Que tudo o que eu faça seja uma oração, uma oferenda a Deus. Que tudo o que eu pense, seja em louvor e gratidão a Deus. Que tudo o que eu diga sejam palavras sopradas pelo Espírito de Deus que habita em mim. Que Deus seja o início e o fim de tudo o que eu faça, diga, sinta e pense. Esta é a vida que estou me esforçando para viver. Esta é a vida para a qual me consagrei. Esta é a minha vocação, é esta vida que Deus me chama para viver!
Mas esta é uma vida escondida! Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres, pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. E este tem sido o meu maior desafio! Quando eu estava no mosteiro, era muito mais fácil, a navegação era tranquila, pois eu não estava num pequenino bote, mas num grande navio e não era eu quem o comandava! Eu era apenas uma tripulante, obedecia ordens e me entregava ao comando do capitão! Era a madre quem tomava as decisões por mim, então não havia com o que me preocupar, pois não havia necessidade de tomar nenhuma decisão! Bastava obedecer! Tudo era mais simples, tranquilo, seguro.
Aprendi muito enquanto estava no mosteiro, conheci muitos mistérios do alto-mar e avancei muito na travessia, mas agora Cristo me pede que navegue em meu pequeno bote, solitariamente. E são muitos os desafios dessa travessia solitária!
Tenho os olhos sempre fitos no Senhor. Minha alegria é estar com o Senhor, é estar com Ele em oração, escutando sua Palavra, contemplando seus mistérios. Somente vós sois meu Senhor, nenhum bem posso achar fora de vós. Nada no mundo me traz tanta delícia, tanta alegria, tanto gozo quanto estar com o Senhor! Mas isto é loucura para o mundo! Não posso revelar isso para ninguém, a minha verdadeira vida está escondida para o mundo! Por Ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo.
A vida de oração e clausura que eu vivia no mosteiro, eu trouxe para o meu pequeno apartamento. A cada dia, ofereço ao Senhor como penitência pela conversão dos pecadores e pela santificação do clero algumas renúncias: renuncio a algumas horas de sono, renuncio a certos alimentos, oferto como penitência uma dieta bem restrita (mas saudável), renuncio ao prazer de escutar música e às distrações do mundo em geral. Renuncio às mídias sociais (Facebook e Twitter), aos prazeres da arte (cinema, literatura) e aos prazeres da natureza (praia, passeios). Vivo uma vida eremítica de clausura e ascese. Todas essas renúncias eu as renovo diariamente, na minha primeira oração da manhã, e as ofereço a Deus como penitência e como sacrifício de louvor pela conversão dos corações para Deus e pela santificação do clero. Ofereço estas renúncias prostrada aos pés da cruz do Senhor, para estar com Ele em seus sofrimentos, participando de suas dores, solidária com Ele em sua Paixão.
Um dia eu escutei Nossa Senhora fazer para mim o mesmo pedido que fez a Santa Bernadete: ‘penitência, penitência, penitência’. Eu entendo a penitência como colaborar com Cristo na sua obra redentora, colaborar com a sua graça oferecendo a Ele a minha vida e participando com Ele de seus sofrimentos. A penitência que ofereço a Ele é em forma de renúncias, como uma maneira de me esvaziar. Quanto mais eu me esvazio, mais espaço se abre em meu coração para o amor de Deus! Quanto mais eu me esvazio, mais meu coração se purifica para Deus! Meu coração esvaziado, purificado, se torna um altar de onde jorra o rio de águas vivificantes como na profecia de Ezequiel. Quanto mais eu renuncio aos prazeres do mundo, mais eu me sinto em comunhão com Cristo e mais eu me faço habitação do seu Espírito! Assim, essas renúncias, para mim, ao invés de serem experiências de sofrimento, se tornam experiências de grande alegria, de profunda paz, de imenso gozo! Esforçai-vos por alcançar as coisas do Alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. As alegrias do Alto são incomparavelmente maiores que as alegrias deste mundo! Não troco por nada a alegria que experencio nas pequenas renúncias de cada dia! O prazer que experencio com estas renúncias é incomparavelmente maior que o prazer que obteria com aquilo que renuncio! Este é um paradoxo da vida espiritual que parece loucura aos olhos do mundo! Como sou feliz na pobreza, simplicidade e escondimento da minha vida de oração, esvaziamento, escuta e contemplação!