Carta do Retiro na Trapa

 24 de setembro de 2016

Carta imaginária que escrevi para Dom Bernardo Bonowitz durante retiro no Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em preparação para conversa que teria com ele no dia 27 de setembro de 2016.

 

Padre Bernardo,

Eu queria lhe falar das minhas experiências de Deus.

Preciso falar, contar para alguém…

Pois ao mesmo tempo que sinto uma comunhão com o Pai e com todo o seu universo, ao mesmo tempo que sinto a presença do Cristo e do Espírito Santo em mim e escuto o Senhor falar para mim, quando volto para o mundo e para a minha consciência normal de mim mesma, sinto uma espécie de solidão.

Ao ler sobre as experiências místicas dos santos e dos homens e mulheres que buscaram a santidade, eu me sinto menos só, mas daí me condeno por ter a presunção de estar vivendo em santidade.

Padre Bernardo,

Eu preciso contar as minhas experiências de Deus na oração, na contemplação e na leitura orante da Escritura para alguém que me diga que eu não sou nem louca, nem santa.

Eu preciso conversar com alguém que também tem estas experiências e que compreenda do que eu estou falando, para que eu não me sinta só, nem louca, nem santa.

Mas como falar dessas experiências?

Elas não têm uma sequência lógica e linear, não têm um começo e um fim.
São visões sem imagens.
São compreensões da Palavra que traduzem e iluminam a Palavra para o meu coração.
São apreensões instantâneas, se tento agarrá-las para expandi-las ou guardá-las, elas me escapam.

As memórias que restam da experiência são pálidas e vazias, como flores secas, mortas, sem vida e sem perfume. São apenas memórias, não são mais a experiência.
Mas me entristece que estas experiências terminem quando vêm ao meu coração, que eu não consiga comunicá-las.
Parece um desperdício que somente eu saiba que eu vivi essas experiências.
Por que Deus se revela a mim? Por que eu?
Por que Ele me escolheu entre tantos?
Não é porque sou santa, porque não sou.
Sou pecadora.
Meu coração, quando está sob seu próprio impulso, é egoísta, presunçoso, vaidoso, exigente com os outros, intolerante, crítico, arrogante.
Preciso estar em oração contínua, constante e vigilante para esvaziar e purificar meu coração desses pensamentos impuros.
Meu coração é naturalmente pecador. Sem a graça do Espírito Santo de Deus, ele se torna pesado, escuro e endurecido.
Mas por que a graça do Espírito Santo se derrama sobre mim e com tanta abundância?
E por que não se derrama sobre os outros fiéis da mesma forma e com a mesma intensidade?
Por que Ele me chama para a vida monástica?
Por que eu?

Padre Bernardo,

Peço-lhe a caridade de escutar o meu coração e me esclarecer se estou confundida.
Compreendi que Deus esculpiu meu coração, que, por sua graça e vontade, Ele formou em mim um coração que é sensível à sua presença e que tem sede da sua luz.
Ele colocou em mim um coração contemplativo e, quando me gerou, quis que eu fosse uma monja.
Meu verdadeiro eu é uma monja que contempla e ora ao Senhor, que busca o Senhor acima de tudo e em tudo, que ama a Deus sobre todas as coisas e vive o seu amor na oração e na contemplação.
Por trás e por baixo de tudo o que eu fazia e vivia no mundo, esteve sempre a monja, oculta, mas que se desenvolvia e crescia em intimidade com Deus.
Agora, meu falso eu, meu eu externo, secou, morreu, não é mais necessário. Quando a borboleta está pronta, o casulo morre e ela se liberta.

É possível isso, Padre Bernardo?

Que eu tenha vivido todos esses anos como uma monja disfarçada, travestida, infiltrada no mundo?
Agora Deus me quer toda, inteira, para sua obra, sem disfarces, sem interferências, sem distrações.
E agora Deus começa a se revelar para mim de forma mais completa, mais inteira, sem tantos véus.
Alguns véus foram rasgados e minha fé se iluminou, se expandiu, cresceu, se fortificou.
Antes, via por entre filtros que enfraqueciam a claridade e o esplendor, que diminuíam a visão.
Agora, o olhar se ampliou e sei que é só o início.
Jesus vem ao meu encontro e fica diante de mim, que recebo seu olhar e acolho sua Palavra, prostrada em lágrimas.
Ele conhece tudo o que existe no meu coração, Ele vê tudo, Ele me conhece totalmente, nada está oculto ao seu coração.
Ele me olha e me ama.
Ele diz que estará sempre comigo e que não há nada a temer.

E no seu amor eu sou plena, completa e feliz.

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