Estes vinte dias ficarão gravados para sempre nos livros de história, serão analisados exaustivamente pelos cientistas sociais, serão investigados pelos pesquisadores por gerações vindouras. E nós vivemos estes dias, juntos. Eu vivi cada um destes dias como se fosse o último. Nós víamos que o povo brasileiro caminhava atônito, cego, hipnotizado, para um abismo. Cada dia que se aproximava da eleição do segundo turno, nos aproximava do fim da democracia, do fim das políticas sociais, do fim da cultura, do fim da justiça, do fim da polícia federal, do fim da Amazônia, do fim do Pantanal e da Mata Atlântica, do fim dos povos originários, do fim das minorias, do fim da alegria, do fim da diversidade, do fim da liberdade. Estávamos à beira de um precipício sem volta. Se o Brasil caísse nas mãos do clã Bolsonaro, da Famiglia, era o fim do mundo. O mundo inteiro olhava para nós. O planeta dependia de nós. O Brasil é uma potência mundial, somos uma nação rica em tudo, em recursos naturais, em população, em produção econômica, em cultura, em biodiversidade, em alegria. Nosso povo é exuberante, rico de fé, de esperança e de amor! Somos um povo pacífico, que semeia a Paz, que promove a Paz no mundo inteiro. Sim, sou brasileira, com muito orgulho, com muito amor!
Nestes vinte dias, víamos que poderíamos perder tudo, tudo! Tudo seria perdido por uma alucinação coletiva, por uma manipulação midiática, por poderes poderosos que disseminam mentiras, ódio, corrupção.
No dia seguinte ao resultado do primeiro turno, meu coração afundava no desespero, na angústia. Eu rezava, rezava, implorava a misericórdia de Deus. Então, às 13h do dia 06 de outubro, recebi pelo whatsapp uma mensagem de um amigo querido me convidando para entrar no Exército do Lula. E assim, subitamente, eu me vi parte de uma comunidade, de uma multidão, de uma nação inteira que lutava, que resistia, que combatia o fascismo com amor, com união, com determinação, com a força da organização e da esperança. Eu não estava só. Eu não era apenas um coração aflito, angustiado. Éramos dez milhões. Éramos uma nação, um povo, um só coração, uma só alma.
Durante aqueles vinte dias, minha vida virou de cabeça para baixo. Eu não podia mais viver a minha rotina normal, porque nada mais era normal, estes não eram dias normais. Minha oração tornou-se presença no mundo, meu estar no mundo tornou-se minha oração, meu estar com Deus. O Deus Encarnado, Deus entre nós, Deus no mundo agindo através de cada um de nós. Estávamos ali, lutando, pelo amor, com amor, no amor. Era o amor que nos unia, o amor à Paz, o amor ao planeta, o amor aos pobres, o amor às minorias, o amor aos excluídos, o amor aos vulneráveis, o amor à vida, o amor à justiça. Juntos, éramos o amor agindo. Era cada um por todos, e era Deus em cada um.
Minha luta, minha ação, minha oração se fazia através das redes sociais. A missão era simples: curtir, comentar, salvar e compartilhar. Postagem após postagem, rolando minhas feeds, eu estava num campo de batalha. Eu precisava agir. Éramos um exército, éramos dez milhões, e nós venceríamos esta batalha se cada um fizesse a sua parte. E assim foi, por vinte dias. Estávamos exaustos, atordoados, aflitos, desesperados, mas não podíamos parar. O dia da eleição se aproximava. Era preciso também conversar, esclarecer, iluminar aonde podíamos alcançar. Nosso “general” esclarecia: se cada um de nós trouxesse um voto, ganharíamos a eleição. Era fácil, apenas um voto a mais. Dependia de cada um, dependia de mim. Eu precisava fazer a minha parte e cada um faria também a sua parte. Assim, confiantes, fomos em frente e lutamos até o fim.
E vencemos!
Foi tudo tão imenso, tão poderoso, tão esplendoroso, tão magnífico, que sabemos que nada será como antes. Algo muito profundo mudou em cada um de nós, como povo, como nação, como pátria. Ainda não sabemos o quê, nem como. Os livros de história dirão para as gerações vindouras. Mas nós vivemos. E jamais esqueceremos.