Trilhas no Mistério

21 de novembro de 2017.

Talvez a dúvida em relação à realidade das minhas experiências seja um sinal positivo que indica que continuo centrada, com os pés no chão, que não enlouqueci, nem deliro.
Talvez essa dúvida seja um sinal que confirme a realidade mesma dessas experiências.
Penso nos psicóticos que não têm nenhuma dúvida sobre a realidade de suas alucinações.
Penso nos fanáticos fundamentalistas que não têm nenhuma dúvida da realidade da sua interpretação literal da Escritura.
Penso nas pessoas desequilibradas emocionalmente e psicologicamente que não duvidam de suas crenças irracionais, confusas e delirantes.
Essas pessoas não nutrem dúvidas quanto à realidade de suas experiências e interpretações.
Penso nos fenômenos da histeria e da hipnose, em que as pessoas têm experiências causadas por suscetibilidades psíquicas e bloqueios emocionais.
Como posso saber se as minhas experiências não são apenas fruto de auto-hipnose, autossugestão, histeria, psicose ou imaginação?
Talvez essa dúvida seja o sinal mesmo da minha sanidade mental, psicológica e espiritual.

Eu tenho a experiência, eu vivo a experiência, mas nunca saio totalmente de mim, nunca perco a noção de quem eu sou, de onde estou. Mesmo que me sinta “arrebatada”, mesmo que sinta o espaço-tempo se dissolver, mesmo que eu sinta a realidade se transformar e ser transportada a uma dimensão atemporal e não-espacial, ainda assim minha consciência de mim mesma, de meu corpo, de minha existência pessoal, física, material, não se dissolve, não se desvanece.
É pelo fato dessa consciência “normal”, cotidiana, nunca “sair de cena” totalmente, nunca desvanecer por completo, que eu continuo sempre duvidando da realidade dessas experiências; fica sempre no fundo da minha consciência uma ponta de dúvida, de questionamentos, se eu não estou imaginando, criando essas experiências com o meu pensamento como um processo histérico ou de auto-hipnose.
Mas começo a ver, agora, que essa dúvida perene seja talvez o próprio sinal da realidade das experiências, a confirmação de que não fui tomada por um desequilíbrio psíquico ou espiritual, mas que estou no pleno domínio e controle da minha vida, da minha mente, do meu ser.
Sim, eu não enlouqueci.
Sim, o que eu tenho vivido é real.
Sim, eu tenho tido visões do céu.
Sim, eu contemplo o amor dos santos que oram por nós continuamente.
Sim, o amor deles é real,
a presença deles é viva, concreta, eficaz.
Sim, eu não estou só,
e nunca estarei só.

Na visão de ontem,
eu compreendi que estava abrindo uma trilha
na escuridão,
que eu mergulhava no mistério,
e que meus passos eram iluminados pelo Espírito.
Quem abre trilhas
avança sozinho,
caminha à frente.
É um trabalho solitário,
à minha frente, somente a escuridão do mistério,
não há outros peregrinos ao meu lado,
é apenas o Espírito
que me acompanha
de dentro de mim
e vai deixando um rastro luminoso,
mas que eu não olhe para trás,
que eu não procure por seguidores
para que eu não me perca,
que apenas o desejo de beber da fonte viva,
somente a sede de Deus
seja o meu impulso,
minha razão,
meu motivo.

Desbravo a escuridão
porque somente Deus pode saciar minha sede.
Ele me deu de beber a água viva
e agora nada mais no mundo me satisfaz,
me atrai,
me prende.
Mergulho no mistério,
avanço na escuridão
tendo como guia a luz do Espírito
e a Palavra,
o Verbo encarnado,
o Cristo ressuscitado.

Foi quando vi
que não estava, de fato, só,
que estava rodeada de santos
que me acompanhavam,
me sustentavam,
me amparavam,
que oravam por mim
a todo instante.

Me senti desfalecer
de tanto amor que me envolvia,
a realidade como que virou do avesso,
o céu estava aqui
e eu estava no céu,
o “aqui” estava dentro do céu,
o céu era o outro lado do “aqui”,
como que o avesso,
e eu me via ao mesmo tempo nos dois lados,
“aqui” e “lá”,
na terra e no céu.
O céu não estava lá no alto,
distante,
o céu estava aqui também,
o “aqui” estava dentro do céu,
não sei como explicar o que senti e vi e entendi…
Naquele instante, não conseguia mais ficar no meu corpo,
era como se desfalecesse,
mas minha consciência continuava alerta,
desperta,
eu estava aqui e não estava.

Quando voltei ao meu estado normal,
tentei entender o que acontecera,
será que eu me auto-hipnotizara?
seria um processo histérico?
estaria criando tudo isso com minha imaginação?

Hoje, então, é que eu comecei a entender
o sentido e a importância da dúvida.
Paradoxalmente,
a dúvida me confirma
que era tudo real,
e fortalece meus passos
para avançar no mistério,
abrindo uma trilha
com coragem e humildade,
confiante na luz que me guia,
no amor do Cristo
e na oração dos santos
que me acompanham.

É só uma coisa que eu busco,
é habitar na casa do Senhor,
beber da sua fonte
e me unir aos anjos e santos
na sinfonia eterna
de louvor à Trindade Santa,
glorificando ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo
pelos tempos infinitos…

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