Kenosis (2ª parte)

Reconhecido exteriormente como homem, humilhou-se, obedecendo até à morte e morte de cruz (Fl 1,7b-8).

Deus humilhou-se. Jesus é subjugado, despido de suas vestes, imobilizado no madeiro na mais extrema e abjeta humilhação. Ó mistério da cruz, escândalo e loucura para quem não crê, mas, para nós, que cremos, é poder de Deus e sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,23-24)! Mistério da nossa Redenção, tão incompreensível, tão surpreendente, tão escandaloso, louco e absurdo, que a humanidade precisou ser preparada pacientemente por uma longa história da salvação, educada pelas sagradas Escrituras e anunciada pelos santos e profetas desde os tempos mais antigos (Lc 1,70) para que pudéssemos compreender os sinais, vislumbrar o sentido da cruz e acolher o Ressuscitado.

Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida (Jo 14,6). A Cruz é o caminho para a vida verdadeira, não há outro. Não há ressurreição sem cruz. Quem buscar a sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará (Mt 10,39). E a cruz é humilhação. 

Humilhai-vos diante do Senhor, e ele vos exaltará (Tg 4,10). 

Humilhar-se é esvaziar-se do amor próprio, é sair de si, é descentrar-se. O eu deixa de ser o centro da nossa existência, o polo ao redor do qual vivemos e nos movemos. Deixamos de viver ao redor dos nossos próprios interesses buscando apreço, estima e valorização pelo outro. Humilhar-se é não querer ser importante, é não precisar ser amado, apreciado, valorizado pelos outros. Humilhar-se é abrir mão da estima dos outros, é esvaziar-se da necessidade da estima dos outros para o eu.

Quando amamos a nós mesmos mais do que a Deus, quando amamos a nós mesmos mais do que ao próximo, nosso eu se torna um ídolo. Passamos a adorar o nosso eu, a buscar agradá-lo, a oferecer-lhe o sacrifício do nosso tempo, da nossa própria vida, para que ele seja adorado e amado. Tornamo-nos escravos do eu e vivemos para servi-lo. A humilhação é o remédio que nos cura dessa doença, é a terapia que nos livra desse mal. Quando nos humilhamos, combatemos o pecado do orgulho e exercitamos a virtude do desprendimento, da abnegação.  A humilhação é o sacrifício da vaidade, é a mortificação do eu, é sacrifício espiritual que nos aproxima do amor de Deus.

O Senhor exalta os humildes, deles é o Reino dos Céus. (cf. Lc 1,52b; Mt 5,3)

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