#2 Carta – Sobre o que é Deus

4 de fevereiro de 2017

Filho amado,

Vamos iniciar nossa travessia? Para navegarmos no mar das minhas experiências de Deus, precisaremos de palavras, esta será nossa barca. Contudo, será uma travessia permeada de metáforas, analogias, imprecisões e paradoxos porque a palavra é um veículo muito limitado para navegar nestes mares. É como tentar a travessia do oceano num pequeno bote à vela. Como conseguirei falar das minhas experiências de Deus para você usando palavras, se Deus, como eu o experencio, é o que dá origem a toda palavra, é o que possibilita que minha mente e nossas mentes criem palavras, é o que dá sentido e significado a toda palavra humana? Mas como as palavras são a única barca de que dispomos no momento, vamos zarpar assim mesmo, sem pretensão de chegarmos a nenhum lugar, apenas deslizando na suave brisa e contemplando o horizonte distante, onde céu e mar parecem se encontrar…

A minha experiência de Deus ocorre em vários níveis e dimensões do meu ser: como uma ideia em minha mente, como um sentimento em meu coração, como uma intuição em minha alma e como uma presença real e concreta em minha vida. Como não temos pressa e apenas deslizamos na brisa do oceano, vou começar compartilhando, tentativamente, como experencio Deus no meu pensamento, ou seja, a minha ideia de Deus. Deixaremos essa brisa nos levar e, aos poucos, gradualmente, talvez consiga compartilhar também as outras dimensões da minha experiência que são ainda mais inefáveis, inexprimíveis, imensuráveis…

Deus em meu pensamento é como a abstração da abstração, pensar nele me faz expandir ao máximo a minha capacidade de abstrair, pois me faz pensar no que é sem forma, sem substância, sem começo, sem fim, sem medida. Contudo, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que pensar em Deus exige de mim o máximo da minha capacidade de abstração, esse mesmo pensamento me lança de volta ao que há de mais concreto, de mais real, em tudo o que existe. Quando penso em Deus abstratamente, ele se revela para mim, concretamente, como a realidade do real, como a realidade fundamental de tudo o que existe, como o substrato concreto de todo o ser e de toda a realidade.

Muito confuso? Tentarei uma analogia, algo que possa facilitar visualmente a apreensão desta experiência. Digamos assim: meu corpo é feito de células, as células são feitas de moléculas, as moléculas, de átomos, os átomos, de partículas subatômicas, as partículas subatômicas são feitas de quarks, que são feitos de… Deus! Nessa analogia, e ressalto que é apenas uma analogia, Deus é a substância última do ser, subjacente a tudo o que existe: estamos todos imersos em Deus como gotas de água em um oceano. Assim, em minha experiência, vejo que Deus está em toda parte, em todo o tempo e em todo o lugar, ou melhor: tudo o que existe está em Deus, existe em Deus.

Todavia, esse é apenas um dos aspectos da minha experiência do ser de Deus: a sua onipresença. Se Deus fosse apenas isso para mim, eu não teria motivos para buscar um relacionamento pessoal com ele. Deus seria apenas uma abstração irrelevante e desnecessária na minha vida. Eu poderia viver tranquilamente sem precisar me ocupar, me interessar ou me relacionar com ele, pois este Deus seria impessoal e indiferente. No entanto, ao contrário, o principal aspecto da minha experiência de Deus é a de que ele se importa comigo, de que ele se interessa por mim, ou, mais precisamente, de que ele me ama. Pausa. Respiro fundo e vejo que já chegamos no alto-mar: o amor de Deus! Será que conseguirei falar da minha experiência do amor de Deus? Será que conseguirei dar forma à experiência do que é infinito e sem medidas? Será que conseguirei expressar de forma lógica e inteligível a experiência daquilo que transcende a própria razão?

Por enquanto, repousemos um pouco no silêncio, contemplando essa infinitude do horizonte… Na próxima carta, tentarei retomar essa brisa e navegar um pouco além nessa corrente, nessa experiência de me saber amada gratuita, infinita e incondicionalmente por Deus…

Com todo o amor infinito que mora em meu coração,

Mami

#3 Carta – Sobre a vida no Mosteiro

 

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