#4 Carta – Sobre minha busca da Verdade

26 de maio de 2017

Filho amado,

Há tanta coisa que queria te contar, tantas experiências e descobertas para compartilhar, que fico sem saber por onde começar! É como se tivesse um imenso novelo de lã em minhas mãos e fico procurando a ponta por onde começar a desenrolá-lo… Depois de várias tentativas de iniciar esta carta, depois de ter tentado várias pontas, acho que encontrei a que poderá nos levar até o centro do novelo. Esta ponta é somente uma palavra: “verdade”.

O que é a verdade?

Desde muito jovem, esta pergunta me intrigava profundamente. Ela era fundamental para mim, eu sentia que a minha própria existência, a minha vida, dependia dela. Eu precisava saber o que é verdadeiro e como é possível distinguir o conhecimento verdadeiro do erro, da ilusão, do engano. Inicialmente, eu pensava que encontraria estas respostas na filosofia e na ciência. Assim, para saciar minha sede da verdade, comecei a buscar, com avidez, o conhecimento filosófico e científico.

Contudo, quanto mais eu lia e quanto mais eu conhecia, menos eu sabia. Cada resposta que eu encontrava abria para mim um leque de novas questões. Os tratados filosóficos e os achados científicos revelavam a meu olhar inquiridor cada vez mais perguntas, sem que eu encontrasse nenhuma resposta que me satisfizesse.

A física, por exemplo, conseguia explicar em detalhes as leis que regem o universo físico desde o Big Bang, mas não me explicava como surgiram essas leis, o que elas são, e por que elas são tão perfeitas e absolutamente precisas a ponto de terem possibilitado o surgimento de um pequeno planeta, no meio da vasta imensidão cósmica, com todas as condições estritamente necessárias para o surgimento não somente da vida como também da vida consciente.

A biologia podia descrever minuciosamente todos os mecanismos fisiológicos envolvidos na transformação de um zigoto num ser humano, mas não podia me explicar o que é a vida, isto é, o que é que faz a matéria inerte se transformar num ser vivo.

A neurociência conseguia explicar nos mínimos detalhes os processos eletroquímicos no interior das sinapses cerebrais, mas não era capaz de me explicar como esses processos de natureza física se tornam experiência consciente, isto é, consciência, pensamento, imaginação, sentimento etc.

Tampouco encontrei na filosofia respostas que me satisfizessem, pois descobri que todos os sistemas filosóficos apresentam brechas, incompletudes, inconsistências. A filosofia parecia ser, para mim, um exercício intelectual estéril girando em torno de si mesmo sem conseguir sair do lugar, assim como um cachorro aturdido tentando morder o seu próprio rabo.

Assim, reconheci, com aflição, os limites do conhecimento racional e científico. Compreendi que, através da filosofia e da ciência, podemos conhecer o mundo, mas não podemos explicar os seus fundamentos. As questões últimas (ou primeiras?) como “o que é o ser?”, “por que existe o universo?”, “por que existe alguma coisa ao invés de coisa nenhuma?”, “o que é a consciência?”, “como é possível o conhecimento?”, “o que são as leis da natureza?” etc., são imperscrutáveis, impossíveis de serem respondidas plenamente pela razão humana.

Eu me vi, assim, navegando à deriva em minha busca da verdade, com o horizonte me parecendo cada vez mais intransponível. A ciência e a filosofia não me mostravam o norte, eram bússolas inúteis para mim, pois apontavam somente para o interior de si mesmas.

Contudo, após ter atravessado a escuridão de muitas noites sem lua e sem estrelas, chegou até mim finalmente a claridade de um farol. Obviamente, estou falando aqui por metáforas, por analogias, mas a experiência era (e continua sendo) muito real e concreta. Sob a luz desse farol, eu encontrei o que tão ardentemente buscava: a verdade. Ela veio ao meu encontro e se mostrou para mim não como um tratado filosófico, não como um achado científico, uma teoria ou um dado empírico, mas como um mistério a ser contemplado. Os místicos chamam essa forma de apreensão da verdade pela contemplação de “revelação”.

Mas que farol é esse? Que verdade é essa que se revelou diante de meu olhar contemplativo? Que luz misteriosa é essa que me mostrou o norte, a direção, o sentido de tudo?

Estas perguntas vão nos levar direto ao centro do novelo, mas precisaremos puxar o fio com vagar, com paciência, para não nos emaranharmos, pois aqui são muitos os fios e novelos que se cruzam! Na próxima carta, tentarei, com calma, desatar os nós dessa trama até chegarmos, finalmente, a este centro…

Amore mio! Obrigada por sua paciência em me escutar até aqui… Sinto como se você estivesse segurando o novelo para mim enquanto procuro desenrolá-lo…

Te amo como a minha vida,

Mami

#5 – Carta de despedida do Mosteiro

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